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19 de Junho de 2018

Guerreira: de faxineira a juíza, a história de uma mulher pobre e negra no Brasil

A luz do quarto de Adriana Queiroz estava sempre acessa nas madrugadas. Ela trabalhava durante o dia, estudava às noites e rezava para que quem apenas a via como uma mulher negra, pobre e filha de analfabetos não quebrasse seu sonho. Adriana não queria ser o que os outros esperavam dela, ela queria ser juíza em um país onde a taxa de analfabetismo das mulheres negras (14%) mais que duplica a das brancas (5,8%), segundo o IBGE.

Adriana, com 38 anos, da 1ª Vara Cível e da Vara de Infância e da Juventude de Quirinópolis, em Goiás. Tem cinco pós-graduações, estuda Letras nas horas vagas, mas já foi faxineira. Ela teve que se esforçar muito mais que a maioria dos seus colegas de aula para vestir a toga. E conseguiu. Hoje conta suas conquistas em um livro que acabou de lançar, Dez passos para alcançar seus sonhos – A história real da ex-faxineira que se tornou juíza de direito.

Os pais de Adriana eram trabalhadores rurais no sertão da Bahia e se mudaram para Tupã, um município de 63.000 habitantes no interior de São Paulo, em busca de uma vida melhor. O orçamento familiar aumentou, o pai virou motorista de ônibus e a mãe vendedora ambulante, mas pagar uma faculdade era ainda um sonho de outra classe social. “A vida deles sempre foi muita dura. Meus pais sofreram muito, eles queriam me dar o que eles não alcançaram, mas não tinham condições. Ninguém na minha família tinha condições de me ajudar”, lembra a juíza em uma conversa por Skype.

A magistrada, que sempre estudou em escola pública, foi a terceira classificada no vestibular para cursar direito, mas a única faculdade de sua cidade era privada. Não tinha como pagar, muito menos como cogitar uma universidade pública em outra cidade. “Eu soube do resultado da prova numa sexta e, na segunda, já tinha que fazer a matricula ou perdia a vaga. Tive três dias para decidir o que fazer, ver se teria que abandonar”.

Ela resolveu, em seguida, pedir conselho e emprego a um professor da cidade. Ele, que trabalhava no corpo administrativo da Santa Casa, conseguiu uma vaga para ela na instituição. De faxineira. Adriana se orgulha daqueles seis meses que limpou o hospital, mas o salário mínimo que recebia não era suficiente para pagar a mensalidade da universidade e ainda ouvia chacota dos colegas. “Força nos braços, advogadinha!”, lhe gritavam. “Esse episódio é muito marcante para mim, justamente por esse preconceito de que alguém que exerce um cargo como eu exercia não possa sonhar alto”.

Faltavam horas para o prazo da matrícula expirar quando Adriana plantou-se na frente do diretor da faculdade. Compartilhou seu sonho de estudar. “Ele se sensibilizou e me concedeu uma bolsa de 50% e diluiu o valor da matrícula nas mensalidades. Assim, durante o dia trabalhava na limpeza e à noite ia estudar”.

Para espanto dos seus conhecidos e familiares, durante a faculdade, Adriana resolveu ser juíza. “Quando anunciei isso as pessoas ficaram espantadas. Não era comum no meu contexto almejar um cargo tão alto. É como se fosse algo inacreditável, faziam questão de frisar que eu era pobre e negra, como se não tivesse nenhuma chance”, lamenta. Decidida, em 2002, terminou os estudos, pediu demissão na Santa Casa, onde já tinha sido promovida ao corpo administrativo e guardou suas coisas em duas sacolas plásticas. Partia para a capital para se preparar. “Eu não tinha nem mala”, relata.

Após alugar um quartinho no bairro da Liberdade e se matricular no curso preparatório para o concurso da magistratura o dinheiro da conta dava para, no máximo, mais dois meses. “Foi um momento muito crítico, o dinheiro estava acabando e eu não tinha conseguido trabalho”, conta Adriana. “Eu me vi de novo nesse dilema de ter ou não que abandonar”. Não precisou. O diretor do curso, o procurador Damásio de Jesus, viu nela uma “pessoa incomum”.

“Logo à primeira vista, olhando nos olhos daquela jovem advogada de 24 anos, tive certeza de que estava diante uma lutadora, uma pessoa incomum, de alguém que, sem dúvida, estava fadada a um grande futuro”, destaca o jurista no prefácio do livro. Damásio ofereceu para ela uma bolsa de 100% do curso durante dois anos e a empregou na biblioteca da instituição. “Fiquei sete anos estudando, sábados, domingos e feriados. Quando as pessoas iam viajar, eu ficava na biblioteca. Depois de inúmeras reprovações, eu consegui. Em janeiro de 2011 passei o concurso e me tornei juíza em Goiânia”.

Caçula de seis irmãos, a única deles que tem ensino superior, Adriana quer motivar agora com o livro a todas as pessoas que, assim como ela, "sonham, mas estão desacreditadas”. “É possível romper os paradigmas sociais”, encoraja. “Eu, particularmente, não sofro racismo hoje. Mas sim vivencio a grande surpresa das pessoas quando me veem. Porque quando o advogado vai procurar o juiz, ele não espera encontrar alguém como eu. Eu não me importo. Eu fico feliz de ter quebrado esse paradigma”.

(Por María Martín / El País Brasil)

(Fonte: tribunahoje)

14 Comentários

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Muito merecido o reconhecimento de quem luta por suas convicções, mas deixemos o vitimismo de lado.
Não vejo motivo algum para que as pessoas se surpreendam quando a veem. A história das dificuldades ficou para trás e hoje tem todo o direito de usufruir do respeito conquistado.
Histórias como essa sempre aumentam nossas esperanças em um país melhor. continuar lendo

Vitimismo? A Meritíssima saiu de uma realidade de risco e buscou forças sabe Deus de onde para alcançar a magistratura. É surpreendente sim. Pelo fato de ser mulher, negra e de origem pobre. Afinal, não é comum que pessoas em situação correspondente a dela ocupem cargos elitizados. Quando pensamos em juízes, pensamos predominantemente em homens brancos e de origem nobre. É uma realidade social. Vitimismo seria se a Dra tivesse tido todas as condições sociais e econômicas para chegar onde chegou e ainda assim dissesse que foi tudo por mérito próprio. Parabéns a Exma. Dra. Adriana Queiroz, que sua história seja lembrada e reconhecida. continuar lendo

Maria Carolina: Senti o vitimismo quando ela diz sentir que as pessoas estranham quando a veem no cargo. Ela é uma pessoa de valor, sem dúvida alguma, mas deve deixar o passado no lugar de origem, essa fase foi superada e isso para que ela mesmo se sinta hoje no lugar que merece. Eu sei que não deve ser fácil, mas é lugar comum as pessoas que sofreram com preconceitos raciais e sociais, levarem isso para o resto de suas vidas. Eu não penso em juízes brancos e de origem nobre. Eu penso em pessoas de caráter nobre, se bem que nem sempre é assim. O Brasil todo aplaudiu Joaquim Barbosa, foi e é ainda venerado pelo povo que ao fim busca apenas justiça. Lutar pelos seus ideais deveria ser norma e não exceção e por isso eu sempre repito que sou contra esse amontoado de leis anti-racismo, porque o que precisamos é apenas de igualdade social, para que todos tenham as condições necessárias para desenvolver seu potencial. Essa é a minha opinião, respeitadas as contrárias. continuar lendo

Concordo José, hoje em dia muitos vitimistas, do sistema, da situação e etc...

É mérito dela, e isso prova, que a condição em que a pessoa é criada, de onde vem, não pode e nem deve ser desculpa para não conseguir progredir na vida, e cometer crimes.

Hoje muitos usam essas desculpas de criação e oportunidades como justificativas para crimes e coisas erradas, que jamais devem ser admitidas. continuar lendo

Tem sim um discurso vitimista, pois mesmo sendo pobres e negros é possível vencer nos estudos, desde que você tenha esforço, dedicação, disciplina e uma biblioteca.

Num complexo estudantil, onde estudei, vejo a biblioteca vazia, mas as calçadas estão cheias de alunos que matam aula pra dançar axé, pagode, reggae, rap, etc. ou brincar de le parkour.

Amanhã, se não se tornarem médicos, engenheiros, magistrados, etc., com certeza não será pela falta de oportunidade, por serem pobres, pretos ou pardos. Há muitos no país que não terão a tal biblioteca, mas isso independerá ao menos do sexo e da cor da pele.

Já o fato do cargo de magistratura ser elitizado, deve-se muito mais a um passado recente e à influência política sobre estes cargos (como na escolha pelo quinto), do que propriamente pela situação financeira ou racial presente.

Antes os concursos era bem mandraques e entravam mais pela árvore genealógica do que pela carga de estudos. Há tribunais cuja composição, formada por "concursos" da década de 1990, têm filho, primo, tio, esposa, marido, cachorro, papagaio, tudo da família da cúpula, à época, dos TJ, MP e OAB (faziam o rateio para ninguém impugnar). continuar lendo

faço faxina na minha casa um vez na semana sei o quanto isso é cansativo. Imagina fazer durante oito horas eu um hospital, cheio de excrementos nojentos, fezes e muito mais, pegar ônibus lotado nesse transporte público caótico, 4 horas de aula e mais estudo de madrugada!!!

Parabéns à excelência e aos seus pais! Nós, brancos de classe média somos muito privilegiados e podemos desfrutar de uma corrida com muito mais conforto. Com esforço para se destacar, mas é uma corrida injusta.

Aliás, o mundo é injusto! É incrível ver pessoas driblando as injustiças e vencendo.

Não é vitimismo. É realidade. continuar lendo

Rodrigo: Você escreveu: "Nós, brancos de classe média somos muito privilegiados e podemos desfrutar de uma corrida com muito mais conforto." Privilegiado? Não tem que estudar? Não tem que trabalhar por ser branco? Não tem que ser um dos melhores para entrar no curso que deseja? Não tem que ralar para se formar? Você por acaso, tem cotas que lhe garantam facilidade de acesso às escolas? Se você tiver algum privilégio, é por ser da classe média alta, (porque média baixa é pobre) e não por ser branco. Vamos à luta, povo, porque a possibilidade existe para quem quer e tem realmente valor. Comprovado! continuar lendo

Eu disse que precisamos nos esforçar. Mas, durante toda minha formação não tive que fazer faxina e nem deixei de me alimentar ou outras dificuldades vividas pela população negra e pobre. Tinha minha segurança tranquila, a violência era escassa enquanto ia para a enfadonha aula do nosso ensino regular. Imagino eu se tivesse todos os outros empecilhos...

As portas eram abertas com muito mais facilidade por eu ter uma "fisionomia europeia". Não sou hipócrita. Meus antecedentes tinham instrução e passaram para mim no convívio diário e eu sempre fui encorajado.

Não preciso de cotas, o sistema já é majoritariamente feito para me privilegiar! Minha cota é de 95% de vagas.

Meus bisavós não foram trancafiados em navios e explorados até a morte nas nas terras ocupadas. Muitos estudos atuais já identificam que a falta de nutrientes e o convívio com a violência na primeira infância geram impactos muito significativos na estrutura cerebral dificultando todo o aprendizado posterior.

Não sou um rico privilegiado, mas não me faltou nada do necessário: Estudo de qualidade, segurança, lazer, saúde e alimentação.

Então, possuo cotas, só que elas são disfarçadas de "meritocracia" em uma disputa que se avalia o conhecimento que eu tive acesso com muito mais facilidade.

Por isso aqueles que conseguem superar mais adversidades que eu tive que superar devem ser admirados. Porque se não é fácil para mim que tive "tudo"(tudo que importa), imagina para essas pessoas que tem pouco, quase nada.

Não é fácil para ninguém, mas, para alguns, existem barreiras que tornam a tarefa quase impossível. E sim, temos cotas, como os números mostram, as pessoas brancas ocupam as posições importantes na sociedade, incluindo na magistratura.

O sistema nos privilegia. Cota de 95%. continuar lendo

Rodrigo.

Pelo seu relato, voce foi um privilegiado socialmente.
E acha que a diferença está só na cor.
Meus pais eram europeus, morei em barraco de zinco e nunca tive nada fácil na vida e nem por isso me considero injustiçado.
Sou o que consegui ser e amanhã serei melhor.
Sem lastimar o passado, apenas agradecendo a vida. continuar lendo

No Brasil, se você estuda em escola particular e tem o mínimo das outras coisas que a Constituição diz que são necessárias, você é um privilegiado. Não precisa ter muito, ou nascer em berço de ouro. continuar lendo

O título deste artigo é racista e preconceituoso.

Deveria ter sido ressaltado o ser humano e não torná-la uma exceção; ser faxineira (como pode), negra (como pode) e pobre (como pode), não é vergonha ou algo que se possa diferenciar das demais pessoas, assim, fez ela o que qualquer pessoa que tem um objetivo, um propósito faz : - se esforçar e conseguir. continuar lendo

Exma. Dra. Adriana, parabéns e exerça com serenimento o seu cargo constado com tanto esforço e analise que a POPULAÇÃO estar a quem recorrer. Principalmente em Sergipe continuar lendo

Fiquei muito feliz em saber sobre sua historia de vida rogo a Deus que continue a lhe abençoar cada dia mais. Pe. Jose Fernando de Faria svcf continuar lendo